domingo, 29 de março de 2009

Citação da semana

“Dias virão, diz o Senhor, em que estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova. Não será como a aliança que firmei com os seus pais, no dia em que os tomei pela mão para os tirar da terra do Egipto, aliança que eles violaram, embora Eu tivesse domínio sobre eles, diz o Senhor. Esta é a aliança que estabelecerei com a casa de Israel, naqueles dias, diz o Senhor: Hei-de imprimir a minha lei no íntimo da sua alma e gravá-la-ei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Já não terão de se instruir uns aos outros, nem de dizer cada um a seu irmão: «Aprendei a conhecer o Senhor». Todos eles Me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno, diz o Senhor. Porque vou perdoar os seus pecados e não mais recordarei as suas faltas.” (Jer 31, 31-34)

Uma aliança nova. A história narrada na Bíblia é a história de um povo, dos seus altos e baixos, dos seus sofrimentos e glórias e a história da sua relação com Deus. A grande novidade da Bíblia (e o que a torna especial e única) é precisamente isto: a relação de Deus com o seu povo. O Deus que podemos descobrir na Bíblia não é um Deus parado, quieto, indiferente. Mostra-se próximo, amoroso, e sempre disposto ao perdão.
A aliança nova é uma nova oportunidade. Não porque a primeira (em termos bíblicos, a aliança com Abraão) esteja gasta. Mas porque Deus dá a cada queda novas oportunidades. E quer fazer com Israel (a casa de Israel e a casa de Judá aqui significala alta e a baixa Palestina, ou seja, o Reino todo) uma história vincada pelo amor, e que vai culminar com a entrega do Seu Filho. È isto a Páscoa.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Citação da semana (a iniciar a Quaresma)

Em seguida, o Espírito impeliu-o para o deserto.E ficou no deserto quarenta dias. Era tentado por Satanás, estava entre as feras e os anjos serviam-no.
Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia, e proclamava o Evangelho de Deus,dizendo: «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho
.»” (Mc 1, 12-15)

Estamos no início da Quaresma, o tempo tradicional devotado a preparar a Páscoa. Preparar quer dizer predispor, reflectir, rezar... Quer dizer estar aberto ao mistério de vida, entrega e redenção de Cristo. Parece bonito, e é. Mas na verdade não estamos lá muito predipostos para perceber o significado último e profundo da Páscoa.
Agora temos 40 dias (é isso que quer dizer quaresma) para podermos pensar nisto.
A proposta de hoje é, uma vez mais, de Marcos. Uma citação curta, muito incisiva, própria deste Evangelho e que o caracteriza. Uma nota da antiguidade do texto, feito de citações curtas e muito densas.
O episódio do jejum de Jesus no deserto está resumido a uma frase, apenas com a nota da divindade de Jesus, servido pelos anjos. O que gostaria de explorar é precisamente o convite ao arrependimento. É esta a razão pela qual esta passagem foi escolhida para iniciar o tempo quaresmal. Arrependimento parece uma palavra má. Daquelas que cheira a mofo. Sobretudo porque a maior parte das vezes nem se entende... O Evangelho quer dizer Boa Nova. Boa notícia. E a boa notícia é que o amor de Deus salva. Mas salva de quê? E do quê é que temos de nos arrepender? A resposta mais fácil é: do pecado. Mas a que vou dar é: salva do desencanto. Do não ter rumo. Do não saber o que fazer nem para onde ir. Mas isto não se percebe (ou aceita) num dia. Nem em quarenta. Um caminho sempre a fazer-se, à medida que se caminha. Infelizmente, nem sempre se caminha a direito. E também ninguém está a dizer que é fácil... Ou óbvio.Como sempre, dúvidas esclarecidas no mail.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Citação da semana (finalmente, depois de longa ausência...)

“Dias depois, tendo Jesus voltado a Cafarnaúm, ouviu-se dizer que estava em casa. Juntou-se tanta gente que nem mesmo à volta da porta havia lugar, e anunciava-lhes a Palavra. Vieram, então, trazer-lhe um paralítico, transportado por quatro homens. Como não podiam aproximar-se por causa da multidão, descobriram o tecto no sítio onde Ele estava, fizeram uma abertura e desceram o catre em que jazia o paralítico. Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados.»
Ora estavam lá sentados alguns doutores da Lei que discorriam em seus corações: «Porque fala este assim? Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?» Jesus percebeu logo, em seu íntimo, que eles assim discorriam; e disse-lhes: «Porque discorreis assim em vossos corações? Que é mais fácil? Dizer ao paralítico: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te, pega no teu catre e anda’? Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados, Eu te ordeno - disse ao paralítico: levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa.» Ele levantou-se e, pegando logo no catre, saiu à vista de todos, de modo que todos se maravilhavam e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim!»”
(Mc 2, 1 - 12)


O Evangelho de Marcos é marcado por uma forte componente humana de Jesus, pelo menos na primeira parte. Nos primeiros capítulos, Jesus ensina, acolhe, escuta, cura... É disso exemplo esta passagem, uma cura, de um paralítico, uma vez mais marcada pela presença e pela desconfiança das classes governantes judaicas. Esta dialética está também presente em Marcos, como em Mateus e Lucas (os três evangélicos chamados históricos), e faz parte da intenção teológica presente nas fontes comuns a estes três Evangelhos.
A ânsia de chegar até Jesus é grande. Não apenas do paralítico, cujos amigos não se pouparam a esforços. Mas das gentes, que acorriam a Jesus. Acorriam para escutar e serem escutadas, para serem curadas, sobretudo, como aqui se implica, dos pecados. E é isso exactamente que levanta os comentários dos escribas.
O pecado, na sua essência, é o desvio do projecto de Deus. Perdoar os pecados, a esta luz, é trazer os transviados para o caminho certo. Por isso as multidões estão ávidas da Palavra de Jesus. Mas perdoar os pecados é um poder de Deus. E isso escandaliza os doutores da Lei, isto é, os estudiosos, os teólogos da lei judaica. Por isso Jesus ajuda-os a compreender que tipo de poder é o seu: não perdoa os pecados sem ajudar também a que a vida do homem se endireite. Podemos ver aqui, nesta cura do paralítico, um certo paradigma: o perdão dos pecados implica mudança de vida. Se aprendermos a aplicar no quotidiano esta máxima, a vida vai parecer menos difícil... Viver em sociedade implica que nem tudo corra sempre bem. Há distúrbios, desavenças, mal-entendidos, zangas... Mas o perdão, que é a coisa mais bonita que podemos aprender de Jesus, há-de ajudar-nos a mudar o que está menos bem. De parte a parte.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Citação da semana

“Vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e diante do Cordeiro, trajados com vestes brancas e com palmas na mão. E, em voz alta, proclamavam:
‘A salvação pertence ao nosso Deus,
que está sentado no trono e ao Cordeiro!’
E todos os Anjos que estavam ao redor do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres vivos se prostraram diante do trono para adorar a Deus. E diziam:
‘Ámen! O louvor, a glória, a sabedoria,
a acção de graças, a honra, o poder e a força
pertencem ao nosso Deus pelos séculos dos séculos. Ámen!’
Um dos Anciãos tomou a palavra e disse-me: ‘Estes que estão trajados com vestes brancas, quem são e donde vieram?’ Eu respondi-lhe: ‘ Meu Senhor, és tu quem o sabe!’ Ele, então, explicou-me: ‘ Estes são os que vêm da grande tribulação; lavaram as suas vestes e branquearam-nas no sangue do Cordeiro.”
(Ap 7, 9-14)

O livro do Apocalipse, último da Bíblia, é, certamente, o mais intrigante e espantoso livro, não tanto pelo conteúdo (que é conteúdo teológico, como todos os outros e, para os crentes, Palavra de Deus), mas sobretudo pela forma como está escrito e pelo género literário. Pertence ao género apocalíptico e não é exemplar único na Bíblia. O recurso a este género literário está amplamente difundido entre a profética bíblica e até em passagens do Evangelhos. Aqui, no entanto, assume um cariz próprio, que tem despertado a imaginação e o mito e ao longo da história, ofuscando aquilo que de mais importante contém: a mensagem, que é de esperança e de vida. E tanta falta que a esperança nos faz neste período que vivemos…
O Apocalipse pertence à bibliografia de João, o mesmo autor do Evangelho. Está escrito como se fosse uma grande celebração litúrgica, que se desenvolve à volta do Cordeiro, que é Cristo e em que a assembleia são as comunidades cristãs, atormentadas pela perseguição e pela dúvida.
Este trecho insere-se num conjunto de visões que são concedidas ao autor, nas quais ele é mais do que mero espectador a quem é dado conhecer algo. Nas visões bíblicas, e estas não são excepção, o profeta toma quase sempre parte na visão como parte activa: aqui é-lhe feita uma pergunta, para a qual ele não sabe a resposta, nem é suposto que saiba, porque ainda não lhe tinha sido revelado. É-lhe perguntado precisamente para que ele tome disso conhecimento. Uma lógica um pouco diferente da que estamos habituados, mas muito eficaz.
Esta visão relata precisamente um dos aspectos da mensagem salvífica do Apocalipse: é a visão dos eleitos: “uma grande multidão, que ninguém podia contar”, vindos de todas as nações: regista-se aqui a universalidade da salvação, isto é, a salvação que é oferecida a todos e não apenas ao povo eleito (judeu). Estão trajados de vestes brancas e palmas nas mãos, símbolos de festa. Proclamavam em alta voz um hino de louvor a Deus, de pé. Em alta voz porque sem medo e porque querem ser ouvidos. De pé, porque estão face a face com Deus (uma forma profética de se referir à vida eterna) e porque não são já servos de coisa nenhuma: foram resgatados por Cristo. O Ancião esclarece o autor (e a nós que lemos) sobre quem é a multidão incontável (o autor usa aqui um artifício literário também usado pelo profeta Zacarias, em 6, 4): são os que vieram da grande tribulação, isto é, os que sofreram perseguição, de entre as quais a de Nero (o Império Romano tem, aliás, lugar especial no Apocalipse) se torna o protótipo. Lavaram e branquearam as vestes no sangue do Cordeiro. A imagem parece-nos estranha, mas é extraordinária bela: significa a eficácia da morte de Cristo, isto é, a certeza da salvação em Cristo.
O interessante no livro do Apocalipse é, precisamente, o facto de estar escrito neste género profundamente simbólico. Mas não há nele nada de estranho. Ele é, na verdade, uma mensagem encriptada dirigida, precisamente, às comunidades cristãs que tomam parte no livro como assembleia. Uma forma de fazer chegar uma mensagem de esperança e força aos que sofriam, e muito, pelo facto de quererem viver a sua fé. Não é muito diferente do que vemos ainda hoje…

domingo, 26 de outubro de 2008

Citação da semana

“Os fariseus, ouvindo que ele fechara a boca dos saduceus, reuniram-se em grupo e um deles – a fim de o por à prova – perguntou-lhe: ‘Mestre, qual é o maior mandamento de lei?’ Ele respondeu: ‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”. (Mt 22, 34-40)

Uma vez mais, como na passada semana, mais um teste por parte dos fariseus, na expectativa de apanhar Jesus em falso. Mais um episódio daquele jogo dialéctico que frisei na passada semana. Jesus resume a Lei e os profetas em dois mandamentos chave: amar a Deus e ao próximo.
Esta é uma passagem com muitos paralelos, não só nos outros Evangelhos, como também por toda a Bíblia. O mandamento do amor a Deus é o cerne da lei judaica propriamente dita. Aqui é recapitulada e actualizada por Cristo, juntando-lhe o amor ao próximo em pé de igualdade. Há muitos aspectos a explorar nesta passagem… Fica a sugestão de uma leitura atenta. Dúvidas, para o mail.

domingo, 19 de outubro de 2008

Citação da semana

(…) “Os fariseus fizeram um conselho para tramar como apanhá-lo por alguma palavra. E enviaram-lhe os seus seguidores, juntamente com os herodianos, para lhe dizerem: ‘Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de facto, ensinas o caminho de Deus. Não dás preferência a ninguém, pois não consideras um homem pelas aparências. Diz-nos, pois, que te parece: é lícito pagar imposto a César, ou não?’ Jesus, porém, percebendo a sua malícia, disse: ‘Hopócritas! Por que me pondes à prova? Mostrai-me a moeda do imposto’. Apresentaram-lhe um denário. Disse ele: ‘De quem é esta imagem e a inscrição?’ Responderam: ‘De César’. Então disse-lhes: ‘Devolvei, pois, o que é de César a César, e o que é Deus, a Deus’. Ao ouvirem isto, ficaram maravilhados e, deixando-o, foram-se embora.” (Mt 22, 15-22)

Este trecho vem imediatamente na sequência do texto da semana passada. Esta sentença insere-se num conjunto mais ou menos longo, entre os capítulos 19 e 23, essencialmente narrativos, que incluem várias parábolas e sentenças, compondo assim um conjunto de ensinamentos. Este, em particular, como o que abordei na passada semana, acontece já depois da entrada triunfal em Jerusalém, que o autor descreve no cap. 21, portanto, perto já dos acontecimentos centrais do Evangelho.
Descreve-se aqui mais uma tentativa de apanhar Jesus em falso. Uma das constantes por todo o Evangelho (não apenas em Mateus), é a tentativa por parte dos fariseus, de desmascarar ou apanhar Jesus em contradição. Aqui, assume uma certa dialética, quase um jogo, entre fariseus (que constantemente querem deitar por terra a popularidade e a firmeza dos ensinamentos de Jesus) e Jesus, que de todas as vezes os ultrapassa em sabedoria. Existe também aqui, por parte do autor, uma preocupação em mostrar a novidade de Jesus (Mateus escreve o evangelho para cristãos de origem judaica, logo para pessoas que entendem e vivem na mentalidade e cultura judaicas. Era importante que a figura de Jesus fosse apresentada não em contradição, mas como culminar, cumprimento e, ao mesmo tempo, novidade absoluta, das escrituras).
Jesus reage expondo de imediato as intenções dos interlocutores: “Hipócritas!”. Trata-se, de facto, de uma armadilha montada para denunciar Jesus às autoridades civis como estando contra o regime romano. Se a resposta tivesse sido outra, Jesus teria sido acusado de tumultuar as multidões e incentivar a desobediência civil. Por isso, também são convocados os herodianos, isto é, aqueles que são partidários de Herodes, o rei judeu. Seriam estes a denunciar junto dos romanos a prevaricação de Jesus.
Os fariseus, um dos “partidos” da sociedade judaica (havia vários… estes deram origem à corrente rabínica) procuravam proteger a sua influência junto do povo. Jesus aparecia como alguém que arrasta multidões, não impondo regras nem leis nem preceitos, mas passando uma mensagem nova.
A resposta é clara: pois se aceitam a autoridade romana, também é justo que contribuam para essa sociedade. Mais ainda: a autoridade civil não se sobrepõe à autoridade religiosa, nem vice-versa. Ambas cumprem um papel e estão colocadas em esferas diferentes. Simples, não?...
Dúvidas, como de costume, para o mail.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Citação da semana (mais ou menos):

Jesus voltou a falar-lhes em parábolas e disse: “O reino dos Céus é semelhante a um rei que celebrou as núpcias do seu filho. Enviou os seus servos para chamar os convidados para as núpcias, mas estes não quiseram vir. Tornou a enviar outros servos, recomendando: ‘Dizei aos convidados: eis que preparei o meu banquete, os meus touros e cevados já foram degolados e tudo está pronto. Vinde às núpcias’. Eles, porém, sem darem a menor atenção, foram-se, um para o seu campo, outro para o seu negócio, e os restantes, agarrando os servos, maltrataram-nos e mataram-nos. Diante disto, o rei ficou com muita raiva e, mandando as suas tropas, destruiu aqueles homicidas e incendiou-lhes a cidade. Em seguida, disse aos servos: ‘As núpcias estão prontas, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, às encruzilhadas e convidai para as núpcias todos os que encontrardes’. E esses servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons, de modo que a sala nupcial ficou cheia de convivas. Quando o rei entrou para examinar os convivas, viu ali um homem sem a veste nupcial e disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem a veste nupcial?’ Ele, porém, ficou calado. Então disse o rei aos que serviam: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o fora, nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes’. Com efeito, muitos são chamados, mas poucos escolhidos”. (Mt 22, 1-14)

Existem muitas passagens da Bíblia que se referem ao Reino dos Céus. Escolhi esta, que considero muito expressiva e simbólica, para começar esta espécie de rubrica, acrescentando no blog um espaço semanal (aproximadamente…) de reflexão sobre uma passagem. Começo, precisamente, pelo fulcro da mensagem bíblica: o Reino dos Céus.
O género parabólico é amplamente utilizado na Bíblia. Jesus fala aos discípulos quase sempre através de parábolas ou usando linguagem parabólica.
Isto permite-nos a busca de significados vários, adequando e interpretando a mensagem, na procura da forma de melhor fazer entender a mensagem contida. Não significa, porém, que seja lícito interpretar a bel-prazer o que é colocado na boca de Jesus. A interpretação das parábolas, como da Bíblia em geral, está sujeita ao contexto e à mensagem e intenção teológica do autor. Dito de outro modo: existe na linguagem parabólica, precisamente por recorrer ao uso de símbolos e metáforas, a possibilidade de buscar sentidos de interpretação, mas não existe a possibilidade de procurar sentidos para além da intenção com que as parábolas foram escritas. O mesmo vale para o texto bíblico no seu todo: a verdadeira baliza é, realmente, aquilo a que chamamos a intenção teológica do autor sagrado – a razão pela qual escreveu este texto e aquilo (mensagem) que pretende transmitir, para uma situação ou contexto concretos.

Esta é uma parábola muito forte. Utiliza termos duros, ao mesmo tempo que fala do banquete celeste: o Céu. Utiliza uma linguagem bastante alegórica, sendo possível antever duas cenas distintas: até ao versículo 10, trata-se da felicidade messiânica. Deus é o rei, o Messias é o filho. O banquete é a felicidade celestial. Os enviados são os profetas e os apóstolos. Os convidados são os judeus, o povo eleito, e por isso mesmo os convidados por excelência, mas que recusam o convite e maltratam os enviados. Os que são chamados nas encruzilhadas e caminhos são os pagãos (em sentido lato, aplicando ao quotidiano, somos cada um de nós).
A partir do v. 11 a cena muda: o banquete é o juízo final. Mateus funde na mesma parábola o banquete eterno e o juízo, onde os convidados devem vestir a veste nupcial. É talvez a cena mais intrigante: Porque expulsa o rei o mendigo, por causa da veste, se foi chamado do caminho?... Existe aqui um paralelo com Ap 19, 8. Aí relata-se a alegria do banquete eterno, na Jerusalém Celeste (= Reino dos Céus), em que os convidados estão vestidos de branco (= pureza). Este conviva não estava com a veste nupcial, o mesmo é dizer, não estava purificado, não era dos justos, não estava ali de coração. Tudo formas de dizer que para o banquete todos são chamados. Mas cada um é livre de aceitar ou não o convite. Uma vez aceite, está implícita uma mudança de vida. Para quem recusa o convite, há trevas exteriores (o mundo fora do banquete), choro e ranger de dentes (desespero; angústia; sofrimento). Importa dizer que as trevas exteriores, o choro e o ranger de dentes são alegorias simbólicas para significar a não aceitação do convite, ou seja, não se está a fazer aqui um rol do que espera aqueles que recusam Deus (como um castigo), mas antes o que existe, do ponto de vista do evangelista, fora da comunhão com Deus. Por outras palavras: na parábola, ninguém é condenado ao infortúnio. O conviva é lançado fora, como consequência da sua impertinência: o convite supunha a veste nupcial (= mudança de vida = “sequela Christi”). Ao não envergar o traje, recusou a pertença ao banquete. Por isso sai, atado de pés e mãos (ou seja, incapaz de se desfazer das coisas que o “atam”). Volta para onde veio (encruzilhada = dúvida; indecisão; angústia. O mundo sem Deus).
Simbologia bonita!
Como sempre, dúvidas e questões para o mail!